Traição digital? Quando a IA passa a ser o(a) terceiro(a) da relação

A tecnologia sempre influenciou a maneira como as pessoas se relacionam, mas a expansão das inteligências artificiais capazes de manter conversas personalizadas colocou este tema em outro patamar. O que começou como curiosidade virou, para muitos usuários, uma forma de companhia emocional — e isso já provoca reflexos na vida de casais. Embora o assunto ganhe destaque primeiro em outros países, o Brasil não está distante dessa discussão. Na prática, estamos diante de uma nova versão de conflitos que o Judiciário já conhece bem no ambiente digital.

Antes mesmo das IAs se popularizarem, episódios de infidelidade virtual eram comuns nos tribunais. Conversas íntimas, mensagens trocadas em segredo e interações frequentes em aplicativos sempre geraram debates quando havia quebra de confiança. Mesmo sem contato físico, estes comportamentos já impactavam partilha de bens, guarda e até pedidos de indenização. O Direito de Família brasileiro, portanto, há muito reconhece que uma traição pode existir também na esfera emocional e digital.

A chegada da IA apenas ampliou esse cenário. Diferentemente de uma conversa com outra pessoa, a IA se adapta ao humor do usuário, responde de forma atenciosa, mantém diálogo constante e cria a sensação de reciprocidade. Pesquisas internacionais reforçam esta tendência: 60% dos solteiros consideram romance com IA uma forma de infidelidade, e aplicativos de “companheiras virtuais” já foram citados como fator em pedidos de divórcio no Reino Unido. Há ainda relatos de casos em que um parceiro compartilhou dinheiro e dados pessoais com bots — programas criados para simular conversas humanas — muitas vezes sem o conhecimento do cônjuge. Mesmo que estes números venham de fora, os comportamentos que levam a tais conflitos já fazem parte do cotidiano brasileiro.

Por aqui, um dos pontos que tende a ganhar destaque é a dissipação de bens. Assinaturas, créditos em aplicativos e outras despesas escondidas têm tudo para se tornar tema frequente em divórcios. Isso porque a ocultação de gastos é um problema histórico nos processos de família, e nada impede que valores associados a interações com IA sejam analisados da mesma forma.

A privacidade também entra na discussão. Muitos usuários enviam fotos, relatos pessoais e informações sensíveis para sistemas de IA sem refletir sobre como estes dados serão armazenados ou utilizados. Em um país marcado por golpes digitais cada vez mais sofisticados, este tipo de exposição pode gerar riscos reais ao casal e alimentar debates sobre quebra de confiança.

Outro aspecto que tende a crescer é o uso de provas digitais. Conversas com IA, histórico de uso, faturas e registros de assinaturas podem se tornar elementos importantes em ações familiares. Assim como os prints de mensagens viraram rotina nos processos, é provável que, em breve, interações com IA ocupem o mesmo espaço.

Diante deste cenário, a Advocacia Hamilton de Oliveira acompanha de perto estas transformações. A vida digital está cada vez mais entrelaçada à vida afetiva, e compreender este movimento é essencial para orientar clientes, identificar riscos e antecipar situações que, até poucos anos atrás, pareceriam improváveis. Nosso compromisso é interpretar estes novos comportamentos com sensibilidade e técnica, sempre atentos ao impacto que a tecnologia exerce nas relações humanas.

A verdade é que a era das interações afetivas digitais já chegou. E, à medida que a inteligência artificial se torna parte da rotina, ela também passa a influenciar sentimentos, decisões e conflitos. O(A) “terceiro(a) da relação” talvez não tenha rosto nem identidade humana, mas já é capaz de provocar efeitos concretos — emocionais e patrimoniais — que o Direito brasileiro, aos poucos, começa a enxergar com mais clareza!…

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