Você já deve ter ouvido recentemente que Fulano ou Beltrano foi “cancelado”. Mas, afinal, o que significa cancelar ou ser cancelado?

Ocorre cancelamento quando se deixa de seguir alguém nas redes sociais, o que significa deixar de dar visibilidade à pessoa ou ao seu trabalho. Alguns, além de deixarem se seguir, tornam público os motivos pelos quais o fizeram. E ainda existem os casos de pessoas que são canceladas porque não se posicionaram referente a um assunto ou determinada pessoa.

O cancelamento boicota, desqualifica e expõe publicamente o indivíduo, além de gerar um esvaziamento do debate, tornando-o superficial ou inexistente, pois, ao silenciar o cancelado, retira-se dele a oportunidade de mudar de ideia, se arrepender ou simplesmente contra-argumentar.

Vale esclarecer que o cancelamento, antes denominado de “linchamento virtual”, sempre existiu, mas acontecia fora da internet. Com a ampliação do acesso à internet, aliado ao fortalecimento dos grupos identitários e maior engajamento político da sociedade, esse movimento social ganha corpo nos últimos anos.

Pode-se afirmar que o pano de fundo global para o surgimento da cultura do cancelamento é a tensão existente entre democracia e liberalismo. No Brasil, em particular, também ocorreu uma acelerada transformação social nos últimos anos, fazendo com que os debates sobre inclusão política e desigualdade que, até os anos 2000, aconteciam, majoritariamente, nas universidades e alguns foros específicos, chegassem às ruas e às redes sociais.

Embora não haja um marco exato, nos Estados Unidos o cancelamento chamou a atenção em 2017, com o #MeToo, que mobilizou vítimas de assédio e abuso sexual a fazerem denúncias virtuais. As denúncias resultaram em acusações e condenações reais.

Barack Obama, ao ser questionado sobre a cultura do cancelamento, afirmou: “O mundo está bagunçado, existem ambiguidades. Pessoas que fazem coisas boas também têm falhas. (…) Às vezes eu tenho uma sensação de que entre os jovens, e isso é acelerado pelas mídias sociais, há um sentido de que o jeito de fazer mudanças é ser o mais crítico possível sobre outras pessoas e isso é o suficiente. (…) Isso não é ativismo. Isso não está trazendo mudanças, sabe? Se tudo o que você está fazendo é lançar pedras, provavelmente não vai chegar tão longe. Isso é fácil de fazer.”

Em julho deste ano, duas cartas abertas publicadas nos EUA reacenderam a discussão. A primeira, assinada por 150 intelectuais e publicada na “Harper´s Magazine”, saiu em defesa de princípios fundamentais do liberalismo e de princípios democráticos. Seus signatários defendem a supressão da cultura do cancelamento, pois são a favor do debate aberto, sem qualquer restrição, seja de um governo autoritário, seja de uma sociedade intolerante. Em resposta, um grupo de escritores, jornalistas e pesquisadores publicou uma segunda carta, afirmando que a primeira ignora a realidade de minorias nas artes, no jornalismo e no mercado editorial, alegando que o cancelamento é um meio para se alcançar determinados fins e/ou combater o inaceitável.

A antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz também se envolveu recentemente em uma polêmica e quase foi cancelada, após escrever uma crítica para a Folha de São Paulo sobre o álbum visual “Black is a King”, da cantora norte americana Beyoncé. Lilia, que é uma mulher branca, foi duramente criticada por opinar sobre como uma mulher negra deveria se portar e se representar dentro de sua negritude. Lilia se retratou nas redes sociais, dizendo-se arrependida de ter escrito o artigo.

Vale mencionar que os cancelamentos são endógenos, ou seja, se dão entre pessoas, públicas ou não, pertencentes ao mesmo grupo social ou, como costumamos chamar, pertencentes à mesma “bolha”. E apesar de terem ganhado força com os movimentos identitários, os cancelamentos não são uma exclusividade dos progressistas ou apoiadores dos movimentos de esquerda. A direita também cancela e é cancelada.

Os que advogam a favor do cancelamento o justificam como uma forma de posicionamento e de militância em prol de causas humanitárias de determinados grupos identitários, como, por exemplo, a luta contra o racismo estrutural, o feminismo, o respeito às pessoas LGBTQIA+.

Os que são contra o cancelamento, por sua vez, alegam que esse fenômeno social tornou-se uma forma de intimidação, censura e restrição aos direitos individuais, principalmente à liberdade de expressão prevista no artigo 5,° incisos IV e IX da Constituição Federal:

“IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;”

“IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;”

Não se pode negar que a internet é o lugar mais acessível e inclusivo para o exercício democrático da livre expressão. Entretanto, vale lembrar que a liberdade de expressão encontra limites quando esbarra em direitos individuais ou coletivos, ou seja, é um princípio não absoluto (relativo). Há comportamentos e falas que, além de inaceitáveis, são ilegais, sendo passíveis de reparação. Como exemplos podemos citar: incitação à violência contra mulheres, incentivo à cultura do estupro, preconceito racial.

Por outro lado, a patrulha virtual tem que cuidar para não exceder o seu direito de vigilância a ponto de tolher a liberdade alheia, ou ainda transformar a ferramenta do cancelamento em viés de confirmação, outra prática que se tornou usual na sociedade contemporânea. Em tempos de extrema intolerância, o que vai contra a minha forma de pensar, ou contra os ideais do meu grupo de identificação, não me interessa, sendo prontamente rechaçado. Vale lembrar ainda que “quem cancela” num dia também pode ser “cancelado” noutro dia.

Ambas as posturas trazem consequências e devem ser repensadas. Concluo essa reflexão, reconhecendo os pilares que sustentam as duas vertentes, mas penso que o único caminho democrático possível é restaurar e ampliar o debate. Isso não significa tolerar ou se calar perante o inaceitável, mas apontar o erro e dialogar. O que me parece o mais razoável!

“Eu desaprovo o que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo” – EVELYN BEATRICE HALL (frase célebre, erroneamente atribuída a Voltaire).

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